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3 de setembro de 2008

Escrita Directa



Tudo o que eu quero,
o que faço, o que alcanço,
o que sonho, acredito, odeio e abomino.
Tudo o que sei, o que gosto,
todas as convicções, ilusões e desilusões,
vitórias, derrotas, a indiferença,
as guerras internas, o tempo perdido.
Os pormenores, por vezes maiores que a vida,
vivida, bebida, passada, fumada, perdida…
em tudo, em nada, a carga pesada,
a leveza, vazia, azia.
O tempo, o intento… se tento, rebento.
A raiva, o momento, desalento,
desisto, resisto, luto e subsisto.
Neste mar agitado, navego,
perdido em mim, nas incertezas de…
alegrias, tristezas, na agonia da espera,
dos ponteiros hesitantes, do eu impaciente.
A sorte, os deuses, a ciência…
Tomo consciência, impotência,
simples, normal, mortal…
Senhor do meu nariz!
Com naturalidade,
tudo o que eu quero é apenas...
Ser feliz.

18 de julho de 2008

Poeta Vulcão


Vulcão Pacaya, Guatemala

O poeta é um vulcão
Em constante efervescência
Dá a voz à consciência
E à mudez da multidão

Cada vez que ergue a voz
Sobre a vida, sobre a morte
Solta um grito belo e forte
Que ecoa dentro de nós

Ao entrar em erupção
É por vezes genial
Lega-nos a humilde lição
De ser um comum mortal

Mas o poeta é um réu
Julgado sem piedade
Ao escrever a verdade
O que escreve não é seu

Quando a sua veia desperta
Solta ideias com violência
Desvirginando a inocência
Lançando um sinal de alerta

É escravo do que pensa
Agrada a uns, a outros não
A sua maior recompensa
É partilhar a opinião

O poeta é um sonhador
Eternamente embriagado
Embriaga-se por amor
Chega a sonhar acordado

Sabe fazer-nos sonhar
Retractando beleza, ternura
Impulsiona o mundo a mudar
Não se vergando à censura

No seu permanente conflito
Acena bandeiras de esperança
Pensa e sonha mudança
Dá um salto para o infinito.

Nota: Poeta não sou e, não tenho pretensões a sê-lo, afirmo e reafirmo as vezes que forem necessárias que apenas vomito para o papel umas tretas rimadas.

5 de maio de 2008

Abuso da Loucura



Se anda a loucura à solta,
dizem que a mente é torta,
que vai ali e logo volta,
que a lucidez está morta.

Se anda de porta em porta
e a todos afecta o mal,
então o que é que importa
é uma ocorrência banal.

Mas se é um caso isolado,
é alguém que bate mal.
É doido, o pobre, coitado,
é um doente mental.

Toda a gente o olha de lado,
devia estar no hospital
e logo se toma cuidado,
porque é perigoso, anormal.

Para tamanha indiferença,
afinal, qual é o motivo?
Se não se considera doença
quando ataca o colectivo.

Pois eu digo que sou louco
e digo-o com orgulho,
penso e não sou oco,
no mar das ideias mergulho.

Louco é qualquer pessoa
que liberta o pensamento.
Este bate as asas e voa
e é livre como o vento.

Ser louco, é ser diferente
mas igual a toda a gente.
É estar triste num dia
e a seguir logo contente.
É sonhar constantemente,
perseguindo a utopia.

Ser louco, é um estado aparente,
mudar de humor de repente,
ser criança grande e sorrir,
olhar o futuro de frente,
ser sempre independente
e deixar a alma se expandir.

Ser louco, é simplesmente:
viver diariamente;
falar abertamente;
mostrar o que se sente;
escrever livremente,
que...
Ser louco é ser normal!

13 de fevereiro de 2008

Calcanhar de Aquiles



Quando olhas o espelho e a dúvida te assalta
Surge Aquiles e avisa – em ti algo falta
Interrogas o mundo, a verdade escondida
Não entendes porquê, não encontras saída
A resposta é miragem num infinito deserto
É o pensamento prisioneiro na teia do incerto

Quando dás um passo e a insegurança te ataca
Vem Aquiles e avisa – atenção à ressaca
Avanças hesitante, a confiança mutilada
Não percebes porquê, uma promessa adiada
A embriaguez de incerteza, o não avançar
É a vontade amarrada ao horror de falhar

Quando o medo te invade, a angústia se arrasta
E Aquiles avisa – é o teu Eu que se afasta
Evitas a luta, porque a julgas perdida
Não sabes porquê, uma falsa partida
A inércia nefasta rouba o brilho ao olhar
É a acção encalhada, a factura a pagar.

Se no mar que navegas nada faz sentido
E o esforço que fazes é um tempo perdido
Não acreditas em ti, és uma força à deriva
a convicção ausente, a motivação esquiva
São sonhos desfeitos de encontro ao vazio
Naufrágio mental, a esperança por um fio.

Se Aquiles te avisa, não deves hesitar,
Ponto fraco no pé. Pé – Calcanhar
A lógica é estranha, quando o Aquiles te avisa
Calcanhar – Ponto – Fraco – Ponto – Calcanhar
Se Aquiles te avisa, não esperes que aconteça
Calcanhar de Aquiles. O calcanhar na cabeça.

21 de janeiro de 2008

Bolas de Fumo



De cigarro na mão
a pensar na vida,
a procurar solução
para vê-la definida.
As ideias que junto
são como o fumo,
um nublado assunto
de difícil resumo.
Se tenho uma ideia
e a mente desperta,
comparo-a à areia
numa mão aberta.
É feita de segredos
que não sei revelar,
foge por entre os dedos
não se deixa apanhar.
Se defino o conceito,
posso estar a errar,
não sei se rejeito
o que devia considerar.
Se considero a ciência,
e a sua visão,
tomo consciência
de uma grande confusão.
Ainda recorro a Deus,
como última aposta,
mas lá dos céus
não obtenho resposta.
Sem encontrar definição,
faço bolas de fumo,
fecho uma na mão
para meu consumo.
Penso para mim,
agarrei a vida.
tão fácil, assim,
numa mão erguida.
Tenho absoluta certeza
de a ter guardada,
mas é com estranheza
que ao abri-la... nada.
Primeiro a ilusão,
depois a tristeza,
do fumo, a lição;
da vida, incerteza.

6 de dezembro de 2007

Já Morri Mil Vezes



Já morri mil vezes
E sempre ressuscitei
Tantas que me perdi
Nem sequer as contei

Já morri mil vezes
De forma repentina
Tão súbita, nem senti
Foram mera rotina

Já morri mil vezes
Algumas de morte lenta
Tão devagar que adormeci
Em cama sonolenta

Já morri mil vezes
Até já me suicidei
De tudo o que aprendi
Resta o pouco que sei

Já morri mil vezes
Mil mais até Morrer
As vidas que vivi
Nunca irei esquecer.

22 de novembro de 2007

Eugo Retrato


Eu sou eu
e o eu que sou,
é um eu muito meu.
Esquisito?
Não sei...
Mas é um eu que é meu.
Com defeitos, virtudes
Talvez...
Mas sou eu!
Cada qual tem o seu eu,
eu tenho um só meu.
Por mais esquisito que seja,
não deixo de ser eu.
Eu sou eu,
e não há ninguém como eu.
Especial?
Não. Diferente!
Simplesmente, EU!
Entre muitos eus,
eu que sou eu
Afinal...
Quem sou eu?

12 de outubro de 2007

Reflexos


O que são reflexos?
Imagens no tempo,
instantes complexos
ou o movimento?
Será a dança da luz,
flutuando no ar?
Ou será o efeito
que a causa quer dar?
Certo dia, perplexo,
a sós, a sonhar.
Dei por mim a pintar
numa tela o reflexo.
Momento luminoso,
esbocei traços sem fim.
O retrato curioso,
um reflexo de mim.

Da paleta das cores,
inventei a imagem,
dupliquei a paisagem
com linhas incolores.
Se pareço indeciso,
é porque o quadro é vago
e o contorno impreciso
na superfície de um lago.
Talvez seja um anexo...
uma forma de aviso
ou somente o reflexo
de um espelho narciso.
Vidro mentiroso
como as fases da lua,
um reflexo vaidoso,
uma imagem, que flutua.

Pinceladas no vento,
na rapidez de um gesto,
de alguém mais lesto
que antecipa o momento.
Se o olho piscar,
captando o mundo,
terei de pintar
em fracções de segundo.
Ao impulso da mola,
a cadência da bala,
rapidez que fala
sacando a pistola.
O gesto que salta,
procurando viver.
Se o reflexo falta,
o matar é morrer.

São muitos os tons
onde molho o pincel,
fazendo os sons
chegar ao papel.
O esboço invisível,
escondido no ar.
É onda audível,
se alguém a soltar.
Barulhos da vida
levantando a voz,
sinfonia repetida
que chama por nós.
Se no seio de um beco
grito coisas sem nexo,
surge então o reflexo
em forma de eco.

Do estojo da luz
sai o traço desconexo,
reflector que traduz
outra vez o reflexo.
Chama em harmonia,
dançando perdida,
focos de alegria,
a luz distorcida.
E o que dizer
do vulto escuro...
Que em chão ou em muro
parece viver.
Figura que seduz
e por vezes levita,
é sombra que reproduz
o corpo que habita.

Rabisco uma condição,
com um pincel sineta.
Faço andar a roleta…
Talvez sim, talvez não?
Reflexão condicionada!
A vontade de aprender,
é como na tabuada,
decorar também é saber.
O comportamento é cliché,
que depende do acento,
da pessoa, do momento.
A resposta ao porquê…
(com acento circunflexo)
Ser Pavlov, ou ser cão?
É apenas o reflexo
da falta de educação.

Do clássico ao abstracto,
o pensamento convexo.
O sonhar do retrato
por sentir o reflexo.
Resultado, consequência,
um filho da causa,
ramo da ciência
e também uma pausa.

Pode ser defeito
este estilo de pintar,
mas é o efeito
de quem sabe pensar.
Se perguntas eu fiz,
a ti as indexo.
Continua a pensar...
O que é o reflexo?

7 de setembro de 2007

Folha Cheia de Nada


Numa gaveta fechada,
como monge em convento,
repousa ela guardada
para meu desalento.
Uma folha cheia de nada,
à espera do meu invento,
de uma ideia iluminada,
de um filho do meu talento.
Talvez seja a folha errada,
ou quem sabe, se o momento,
mas vê-la ali trancada
é o que mais lamento.
Minha folha imaginada
não me sai do pensamento,
é que ela está destinada
ao poema que fermento.
Mas a gaveta foi violada,
por alguém ciumento,
manchou a minha amada
e abandonou-a no pavimento.
Já não quero a malvada,
e ainda acrescento,
que deve ser rasgada,
cortada de modo lento.
Depois disso, ser lançada,
um por um, cada fragmento,
no fogo para ser queimada.
E, por fim... dêem-na ao vento.

27 de julho de 2007

Imitador Original

Se algum dia imitei alguém,
foi a mim mesmo.
Por vezes, talvez...
A realidade.
Se outra coisa,
peço desculpa.
O meu lema...
Imitar a originalidade.

19 de julho de 2007

Gaveta dos Gatafunhos

São coisas que fui escrevendo em maços de cigarros, toalhas de café, guardanapos ou o que estivesse por perto. Algumas terminadas e trabalhadas, outras nem por isso. São palavras vomitadas para o papel ao longo do tempo.
Como a indisposição mental é imprevisível, a qualquer momento poderão surgir novas atrocidades.